SINTO VERGONHA DE MIM

 

 

NUNCA ESTEVE TÃO ACTUAL!

 A poesia de Rui Barbosa (poeta brasileiro), apresentada a seguir,
 poderia ter sido escrita hoje, sem mudar uma palavra.

SINTO VERGONHA DE MIM
 
 Sinto vergonha de mim
 por ter sido educador de parte deste povo,
 por ter batalhado sempre pela justiça,
 por compactuar com a honestidade,
 por primar pela verdade
 e por ver este povo já chamado varonil
 enveredar pelo caminho da desonra.

  Sinto vergonha de mim
  por ter feito parte de uma era
 que lutou pela democracia,
  pela liberdade de ser
 e ter que entregar aos meus filhos,
 simples e abominavelmente,
 a derrota das virtudes pelos vícios,
 a ausência da sensatez
 no julgamento da verdade,
 a negligência com a família,
 célula-Mater da sociedade,
 a demasiada preocupação
 com o 'eu' feliz a qualquer custo,
 buscando a tal 'felicidade'
 em caminhos eivados de desrespeito
 para com o seu próximo.

 Tenho vergonha de mim
 pela passividade em ouvir,
 sem despejar meu verbo,
 a tantas desculpas ditadas
 pelo orgulho e vaidade,
 a tanta falta de humildade
 para reconhecer um erro cometido,
 a tantos 'floreios' para justificar
 actos criminosos,
 a tanta relutância
 em esquecer a antiga posição
 de sempre 'contestar',
 voltar atrás
 e mudar o futuro.
 
 Tenho vergonha de mim
 pois faço parte de um povo que não reconheço,
 enveredando por caminhos
 que não quero percorrer...

 Tenho vergonha da minha impotência,
 da minha falta de garra,
 das minhas desilusões
 e do meu cansaço.
 
 Não tenho para onde ir
pois amo este meu chão,
vibro ao ouvir o meu Hino

 e jamais usei a minha Bandeira
 para enxugar o meu suor
 ou enrolar o meu corpo
 na pecaminosa manifestação de nacionalidade.
 
 Ao lado da vergonha de mim,
 tenho tanta pena de ti,
 povo deste mundo!
 
'De tanto ver triunfar as nulidades,
 de tanto ver prosperar a desonra,
 de tanto ver crescer a injustiça,
 de tanto ver agigantarem-se os poderes
 nas mãos dos maus,
 o homem chega a desanimar da virtude,
 A rir-se da honra,
 a ter vergonha de ser honesto'.
 
Voz do vento...

 

publicado por Voz do vento às 00:03 | comentar | favorito
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