A Vida Não Usa Borrachas

 

A vida não usa borrachas nem escreve a lápis, com linha fácil de apagar.
Não há lugar para emendar, voltar atrás, retirar o que se fez, retocar aqui e ali. Há lugar, sim, para ser criativo, improvisar, começar de novo a partir do ponto em que se está, aproveitar as linhas já escritas e dar-lhes um novo contorno.

Fazemos escolhas e frequentemente pensamos se estas escolhas foram as correctas. "E se" tivesse sido de outra forma? Como seria hoje o "desenho" da minha vida? Mas não há tempo para fantasias, não há lugar para deambulações da imaginação. Enquanto isso, a vida corre debaixo do nosso nariz, continuamente fluindo, como um rio, que nos leva sabe-se lá para onde, de encontro a sabe-se lá o quê.

E se permanecemos agarrados aos ramos das árvores que ficam em terra, gastamos energia num apego que nos mantém reféns de um passado que não nos leva a lado algum, senão ao mesmo. Se aceitamos largar-nos e mergulhar nas águas por vezes calmas, por vezes turbulentas da vida, corremos o risco de arranhar a perna, apanhar um resfriado, ir de encontro a um pedregulho... mas caso contrário não chegaríamos a uma nova paisagem, não encontraríamos um novo lugar para existir.

A vida não usa borrachas, porque não há palavras que se apaguem, gestos que se esqueçam, sentimentos que se lavem de uma alma que regista ponto por ponto do nosso percurso. É por isto que cada momento é tão sagrado, tão único e ao mesmo tempo tão cheio de possibilidades. Porque independentemente do que passou, a alma permanece e, num renascimento eterno, ganha forças para recriar uma nova aventura.

A vida não usa borrachas, e talvez esse seja o maior presente que nos pode dar a vida. De outra maneira, que importância daríamos a este momento, a esta pessoa que está ao lado, a este riso ou a esta lágrima, se tudo fosse tão facilmente apagado como uma marca na areia, pelo vento?

As borrachas são os artifícios da mente, tentativas de fugir à responsabilidade de cada acto que é nosso. Porque tudo o que se escreve é eterno. E se o homem conseguisse viver com esse cuidado, essa atenção que vem do amor e da vontade de nada ferir e de tudo fazer pelo melhor, haveriam lá guerras ou fomes, enganos ou manipulações.

A vida não usa borrachas, e um dia os escritos da vida regressam para nos abençoar ou atormentar. E nesse momento, há uma lucidez que impregna o cérebro e o coração: "E se eu escrevesse algo de diferente, desta vez?".

 

By Susana Belo

 

www.roteirodaalma.com

 

In Voz do vento...

 

publicado por Voz do vento às 17:50 | favorito